domingo, 27 de julho de 2008

“Já havia se passado um bom tempo em que não fazia questão alguma de subir. Seja lá qual era o meu motivo, sabia que pendia entre o medo de ser descoberto e a raiva de ser nomeado como um “ofensor”. Lembro-me, ainda que vagamente, da época em que eu era realmente um ofensor, um deles, que me submetia aquelas drogas que alguns acreditaram ser um tipo qualquer de cura, um desses que me negava a sentir. “Pai” maldito seja, quem quer que for! Quem pensam que são para oprimir as pessoas assim, a submetê-las a um tipo de sub-vida?

Como famílias podem viver lá em cima sem se tocarem, sem dirigir uma palavra de incentivo e agrado para as pessoas de seus próprios sangues? Como uma mãe, depois de passar nove meses com o filho na barriga pode olhar tão seca e desdenhosa para eles? Sinto que lá em cima é o verdadeiro inferno e temo, temo muito por pensar que um dia possa vir a ser forçado a usar aquelas drogas novamente, mas tudo isso é um medo que hoje tenho de quebrar. Sinto falta do sol, sinto falta do mundo. E hoje volto para cima com uma incerteza crescente de que talvez não retorne mais para cá. E desejo, sim desejo e muito, que me arranquem a vida a ser forçado a ter que eu mesma tirá-la por não aceitar o Prozium e por renegar aquele a quem ousam chamar de “Pai”.

Decido neste momento, que ver, sentir e talvez até mesmo tatear o belo mundo que sei que existe acima são de tudo o que eu mais preciso agora. Nem que seja a última vez quero olhar para o sol, quero sentir o vento soprar em meus cabelos e me sentar novamente no banco em que partilhei com a pessoa cujo amei. E talvez até senti-la por lá, por que não?”

- Relato fictício de um personagem qualquer (dos rebeldes a quem chamam de “ofensores”) do filme Equilibrium.